Quanto custa dizer adeus...
... a quem amamos
O adeus definitivo.
Já se passaram vários meses, mais precisamente 14 meses, mas parece que foi tudo ontem que se passou. Dizem que o tempo tudo cura, menos a saudade que a cada dia que passa aperta mais e só agora é que me sinto capaz de lavrar estas palavras em sua memória.
Ao meu pai...
Cresci a olhar para ele e a vê-lo como a referência do que é se ser, aquilo a que comummente se chama, uma boa pessoa!
Oh, se adorava conversar, de falar com novos e velhos, sempre com uma piada ou anedota na ponta da língua! Confiável. Podia-se-lhe confiar o maior segredo da história ou o tesouro mais poderoso e rico que ninguém saberia da sua existência e no qual ninguém tocaria, o que o fazia dele ser uma pessoa de uma seriedade irrepreensível. Sempre prestável, trabalhador, honesto, leal, esposo fiel, pai, amigo e companheiro.
Habituei-me a tê-lo sempre lá, sempre que precisava de um conselho, um abraço, sem nunca deixar de nos presentear com os seus trocadilhos! Um herói a quem nada nem nenhuma mazela lhe chegava e, não a ver um homem com as suas fragilidades, as suas dúvidas, angustias e teimosias.
Ui se era teimoso...
E foi essa teimosia que mo levou.
Homem trabalhador.
Tinha à volta de 12 anos, quando perde o seu único irmão, mais novo, devido a uma "rasteira" pregada por uma miúda, numa brincadeira estúpida, no jardim do Príncipe Real. No seio de uma família destroçada pela perda de um filho, cresceu, mais cedo do que deveria e aos 14 anos começou a exercer ofício, numa gráfica em Lisboa, onde se profissionalizou como tipógrafo.
Anos mais tarde, durante a guerra do Ultramar foi chamado ao serviço e por lá esteve como radio-telegrafista. De cada vez que saia em missão, sempre sem saber se retornaria, pois era considerado o primeiro alvo a ser abatido pelas forças, de então, inimigas. Orgulhava-se de, apesar de ter visto sucumbir muitos companheiros à sua frente e de ter vivido algumas situações mais perigosas, não ter nunca estado na linha da frente onde teria de "lutar" pela sua vida.
Voltando à sua vida civil, regressou, novamente, à sua profissão onde permaneceu durante mais alguns anos. Casou, teve uma filha e tudo corria bem até, a vida ter dado mais uma volta de 180º e por força das circunstâncias, devido ao meu avô, que trabalhava como contínuo para uma Fundação ter adoecido e como não podia continuar no cargo, foi-lhe proposto assumir as mesmas funções. E assim foi até ao fim, quase, dos seus dias.
O meu pai...
Foi no dia 12 de Dezembro de 2023, que perdi o meu pai para o cancro.
Se não fosse a sua teimosia e fobia levada ao extremo com os médicos podia ter sido, talvez, evitada senão, pelo menos adiada.
Se, para muitos, felizmente, assim que é descoberta a doença dá-se inicio a uma série de exames, análises que levam a tratamentos para a tratar ou prolongar a sua evolução, e assim ganhar meses senão anos de vida, no caso do meu pai não foi assim. Não fomos a tempo. Foi tardiamente diagnosticado e ao fim de 3 meses, entre hospitalização e unidade de cuidados paliativos, onde só permaneceu 1 semana, o meu pai descansou.
O meu pai...
Tinha uma fobia, a "da bata branca".
Se para os outros incentivava a ida a um médico, para ele, ninguém o convencia a ir. Fosse família, amigos, conhecidos, colegas ou administradores do seu emprego, nada nem ninguém o conseguia demover desse medo entranhado nas suas vísceras. O porquê de tal fobia nunca, concretamente, soubemos apenas algumas suposições.
Quando surgiram os primeiros sinais de que algo estaria errado, foi essa mesma teimosia que fez com que adia-se, e adia-se a ida a um médico. Quando foi, obrigado pelas circunstâncias de saúde em que se encontrava e, por finalmente, se ter conseguido sobrepor a sua vontade, já foi tarde.
Dia 13 de Outubro, uma sexta-feira, considerada pelos supersticiosos um dia de azar, inclusive o meu pai, este deu entrada no hospital.
Sucederam-se os dias, as semanas de tormenta, de angústia e dor insuportáveis, por sabermos que, nada mais podiamos fazer por ele, para além do que já tinha sido feito no último ano e, que o íamos perder para a sua teimosia.
Restou-nos estar perto dele. Aproveitar a sua presença ao máximo, durante o pouco tempo permitido pelas horas das visitas ao hospital, mesmo não estando já plenamente consciente do que se passava consigo e ao seu redor.
Custa-me acreditar que perdi o meu pai. O meu herói de quem tantas saudades temos. Do qual guardamos tantas memórias, tantas fotografias que, aos poucos, vão ficando gastas de tanto olharmos para elas.
O tempo passa e cura tudo dizem...
Sim, é uma verdade inquestionável. O tempo passa e a vida segue o seu caminho, mas a saudade, essa, não desaparece, simplesmente fica a moer e a corroer a alma de quem já perdeu alguém, seja eles os pais, avós, marido, mulher ou os filhos.
Até sempre Zé!
Desenho a lápis de cor

























